Março 08, 2003

Na solidão reside
a verdadeira vida
Virgem rígida, angustiada
doce e venerável
fosse-lhe meu amor
desejável!

Para partilhar a existência com os filhotes
precisa a águia gerá-los longe da serpente.
O sol de pôs. Só agora percebo
em meio ao tom rubro e dourado
depois de te dar, calado
o beijo de até amanhã

Quando era pequeno, eu chorava
no quarto escuro orava a Deus
forjava a meu jeito o futuro
Com efeito, só agora percebo
após o sol se pôr e estar eu só
Deus era o meu futuro.
e você aquela a quem me entregarei
um dia. Não há pressa. Não ha
vida no mundo, não há mundo
lá fora. Nada sou ainda, abelha:
Sou tudo apenas. Agora,
o que te entregaria?
Só se inclina às rédeas o cavalo
se sabe o cavaleiro cavalgar
Antes, o que partilharia?
O nome? o que define a palavra?
Fazem grandes espetáculos
as marionetes nas mãos de um ator
experiente. Não tardará, o favo
estará pronto. Sei não será fácil.
Compartilhar é - principalmente
se nada compartilhamos
se apaenas falamos, falamos
e ao dar por nós não queríamos
falar. Mas viver. Ser. Assim.

Ricardo_de_Almeida_Rocha

Março 07, 2003

8.

Esta é uma terra de pranto, angústia e cansaço
As águas sempre à cintura. Sobre as cabeças, a escuridão.
Somente o árduo empenho apazigua o jovem deus
duas vezes nascido nas coxas da mãe molestada.

Beije-me agora
já entrei no meu jardim
bebi com leite meu mel
um cavalo forte se cumpriu

Vinho misturado
sorte lançada
por cima da cabeça
o que escrevermos, teremos escrito
Eli lamá sabactani
Suspiramos gemendo
e gemendo choramos
ao passarmos das trevas
ao silencio da seiva

Agosto 09, 2001

7.


Em tudo se esconde a catarse, que é um passo para a felicidade e outro, maior, para o destino. Nenhuma beleza que fácil se entregue nem a luz visível demais é aquela que esperamos ao seguir a estrela. Nada temos a poupar, porque nada temos e, por isso, ainda nada também a perder. O amanhã desmentirá o hoje e o silvo das seis irá contrariar o ambiente em que o silvo das cinco se fez.

Há uma luta de amor em planos distintos, nos corpos unificados ou naqueles que pouco se tocaram, desmascarados uns e outros pelo mesmo beijo. A silhueta é vária e o rosto renasce no furor de cada nuance onde será a vítima imolada e também no falso altar erguido pela distância, e no amor que se tentou semear para se proteger de si mesmo e talvez o tenha conseguido. De incenso embriaga-se a mãe que oferece o seio ao moribundo. Essa há de ser a última vítima?

Há uma poça de sangue no assoalho e um ônibus passando pelo ponto. Será assim a mulher mais do que ela mesma se unirá à outra, apaixonada, triunfante, no limite a que escapamos com a velhice, junto ao fogão do ateliê. O sol impressionista ainda entra, a noite impeditiva logo vem. Ao conjugar o verbo das cavernas, busca-se a luz e acha-se o útero.






O que houve entre mim e você




PARTE 6


IV


 


O que
houve entre mim e você


Foi o
que havia entre mim e você


nos
separando como  ave e  peixe.


O
amor, foi demais. Transcendeu


a
acumulação e a partilha


tornada
altruísmo e social


Enquanto
nos especializamos


Em ir
pelo mundo matando


O
amor, não escutando 


O que
nos dizem,


porque
mastigamos


de
boca cheia; pregando deuses


que
realmente tem o aspecto


de
deuses e igrejas jamais  


possuidoras
de um dom.


Limitam-se
a certo tipo


de
crescimento, não trazem bem


à
matriz universal, ao Corpo.


E o
Inefável, ninguém sabe


 bem
como, entretanto, se torna


 dizível,
no regresso


 ao
país Natal. 






Agosto 07, 2001







Havia entre mim e você um reflexo




Havia
entre mim e você um reflexo


como
de carro ao sol


na
distância;


uma
borboleta na vidraça.


O
burburinho e o flerte


E
um amor que era semente


E,
por ser semente, não era amor;


Mas,
de todo modo, se cria amor.


Havia
entre nós o mais puro desejo


De
integração. Juntarmo-nos


Ao
som longínquo do vento


De
estimação


Rastreando
as campânulas enredadas


No
balanço da ramagem


Apontando
o futuro nas pupilas


nos
óculos de ouro, sufocadas.


Ah,
uma recepção em Lisboa,


Enfim
terás visto, terás


enfim
vivido!, ao tremular da bandeira


sobre
ti, o estandarte com os dizeres,


ordem
e partilha e algum que entre


pelas
graças da previdência, consolando


um
final de vida inconsolável. A alegria


do
isolamento na privação do básico


que
de há muito tornou-se luxo, uma frase


contida
na estação de ser resgatada pela


semente
do amor, pelo toque inútil


de
um telefone na casa vazia, resgatado


pela
natureza de um olhar rápido


e
apenas curioso que os irmãos


lhe
deitaram. O amor entre nós,


desenvolvido
na desinteração física


e
nas mensagens abençoadamente


distantes,
nos dois em um só e em tudo


nos
dois, um conto que as crianças


fazem
bem em acreditar


com
reservas.        


 


 






Agosto 05, 2001







Parte 6





Parte 6


III


Nosso amor não foi fruto de uma escolha


ou de sentença. Foi simplesmente


o de irmãos como os dos Cânticos


na noite - a cabeça de orvalho conhecendo


o jardim selado, num mundo


em que o incesto jamais seria


pecado. Um amor idealizado


a nos conhecer plenamente. E também


um compêndio, por ser assim


inverossímil, tão absolutamente.







Agosto 04, 2001







O rapaz admirou




6


II


 


O
rapaz admirou-se ao vê-la. Soltou


 uma
exclamação. Chegara ao Rosto


 e
à Alma, um anjo a pairar


 sobre
seus projetos, 


associando-se 
a um tempo de vida 


que
libertaria  o amor antigo


 das
fictícias memórias,


 das
trilhas percorridas num tempo


 que
não mais existe. Aceito, garantiu ela.


 Sim.
Estavam casados. A linguagem era ação, 


do
modo mais comezinho. Por certo sabiam, 


na
explosão de sombra e luz à janela,


 impacientes
pela noite após o jantar na casa


 dos
pais e o incêndio do crepúsculo.


 


Olharam-se
a sorrir. Não havia dúvida.


Podiam
se entregar. A vida se intensificou,


o
mundo se desvendava. Porque eles haviam dito.


Porque
haviam escutado; Porque se compreendiam.


-
Como a garrafa no casco do navio


 e
o legado Em testamento.  


 


 


sexta-feira, 03 de agosto de 2001 14:31:01






Agosto 03, 2001







Parte 6





Parte
6



I



 



Guarda teus rebanhos pelas vigílias da noite


como quem guarda silêncio perante uma sentença.


Não desejarás mais que anjos venham sobre ti


e a glória divina te cerque de esplendor?


não impedirás que, detendo-se os céus afinal,


te chamem ao telefone ou gritem teu nome


à janela com o único propósito de distrair-te?


mas se esperares, se em silêncio esperares,


eis que os anjos enfim dir-te-ão, de um modo


ou outro dirão, que trazem grandiosas notícias.


Ah, então, ainda que tenhas perdido contato,


ainda que as lágrimas não molhem mais o teu rosto


(porque o lugar delas, em teu cérebro,


foi destruído) ainda assim será possível


que te envolvas. Porém, ausentando-se o Espírito,


como ouviria? Os anjos são aqueles que glorificam,


não mais, e tu quem se maravilha. Diz as palavras,


em silêncio, e a vida florescerá à tua volta.


Diz. Vinde e vede.







Agosto 02, 2001







IV





Cânticos - Parte 4
 


 


V


 


Lembremo-nos,
pois, das maças no tempo das maças;


do
contato do fogo com a madeira,


 do
girassol e do crisântemo terminal.


Destino
não é uma simples seqüência


de
acontecimentos, música não


 são
só notas no papel, pintura


 é
mais que tintas sobre a tela.


Fontes
de luz e calor, ao se comprimirem


na
direção do corpo deslocam


a
realidade estacionária. 


 


  
Um movimento pelos espaços


contra
um futuro fixo,


como
a árvore milenar cheia de animais


abrigados
do inverno inevitável


somos
nós mesmos e Deus,


convergindo
pela manhã.